CARTA PRA VOCÊ: SOBRE UMA CARTA DE AMOR QUE NUNCA ESCREVEREI

Chipre, maio de 2017

Querido você,

Espero que esteja bem, me encantaria saber como vão as coisas. Hoje chove aqui nas montanhas, faz frio e a vila nunca esteve tão quieta. Tenho estado muito só nos últimos dias e isso não é necessariamente uma coisa ruim, pela primeira vez pude refletir sem rancor uma antiga inconsciente obsessão: maus relacionamentos.

 

Tenho me questionado o que queria provar com aquelas escolhas

Ou talvez naquela época pensava que não merecia algo melhor. De onde vem tanta insegurança? Em que parte da minha estrada eu fui quebrada?

conversas pra dizer adeus em uma carta de amorHoje estou aqui nessa ilha e, assim como o mar, meus pensamentos me cercam por todos os lados e acabei enviando uma mensagem pra ele, nós que estivemos juntos por 2 meses.

Juntos na medida do possível para uma mulher que está a tanto na estrada, sem endereço ou trabalho fixo. Ele um homem que esteve em duas guerras enquanto a maioria está começando a universidade e se experimentando.

Em alguns dias ele começa sua jornada e nossos caminhos se distanciam ainda mais com o tic-tac do relógio. De nossas semanas levo o orgulho de mim, de ter me permitido sentar naquele balcão e escutar o que ele tinha para me dizer, de ultrapassar os estereótipos e ao final uma pessoa linda encontrar.

 

Hoje pela primeira vez ele demorou horas para me responder

Mesmo estando online algumas vezes ao dia e disso eu entendi que não é porque ele não goste de mim ou o que a gente viveu não significou nada.

A verdade é que a gente precisa dizer adeus e como em um duelo de cowboys, um de costas para o outro e com armas em punho, começar a contar os passos enquanto nos afastamos lentamente.

histórias para uma carta de amor

A diferença é que para ele é mais fácil não olhar para trás, ele está fresco para toda a solidão que a jornada nos reserva e acredite, são muitos. Estar na estrada é estar sempre se despedindo, tudo é efêmero e nunca há mais tempo.

 

Do que fica é o aperto no coração de ver alguém tão bom se afastar de mim.

O que fica é o constante exercício de não me perguntar o que poderíamos ser.

Por aqui toca Lukas Graham, um lindo cachorro dorme em meus pés e seu inquieto rabo toca minha perna. Eu sigo de cabeça erguida enquanto minhas ansiosas mãos se contraem na tentativa de não olhar pra trás.

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