Amores na estrada: Tinder e as novas maneiras de se relacionar

tumblr_mz8djeTxu51qg4blro1_500Essa semana estive assistindo ao filme Her. Nele, Theodore se apaixona pela voz do Sistema Operacional que controla seus dados virtuais, Samantha. Dotada de uma inteligência artificial que, assim como o ser humano, a medida que se expõe ao novo: evolui, ela traz em si a personificação de um ser-humano criado, mesclado à  racionalidade de uma máquina.

Entre os efeitos do filme em mim, me flagrei invadida por uma lembrança infantil, a colcha de retalhos que minha avó costurou e que foi minha companheira de tantas aventuras pelo mundo dos sonhos e pesadelos, a mesma colcha de retalhos que toda manhã saía comigo da cama e me aquecia do frio na espera de minha avó terminar os afazeres no quintal e preparar meu café.

ec7hr82ruoo16h88merojxnqxO ser humano não cansa de surpreender com suas possibilidades de construções quando o assunto é relação. Isso é o que o filme e a colcha têm em comum: o fato de precisarmos desde sempre de aplicativos virtuais que nos estimulem à calmarias d’alma: desde travesseiros, pelúcias, colchas ou mesmo os apps de relacionamentos.

Lembre comigo algum relacionamento que você já teve parecido com o que tive com minha colcha para bem de frente ficarmos ao Her. Um aplicativo digital, capaz de crescer, tendo o outro em disponibilidade, e capaz de se fazer crescer quem o queira junto, quem o aceite, que venha de onde venha.

Toda essa introdução é para falar sobre o Tinder. Em minha viagem pela América do Sul, em uma dessas conversas de socialização, um amigo disse que tinha um encontro. Explicou que tinha acabado de chegar na cidade e estava sozinho, assim em cada novo lugar usava o Tinder para conhecer pessoas. Todos se surpreenderam por eu não conhecer o app, tiraram seus telefones e me mostraram como funcionava. Uns defendiam e outros atacavam, diziam que era somente para sexo, pura superficialidade e que reforçavam relações baseadas em estereótipos.

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Ninguém que tinha o aplicativo estranhava essas relações nascidas fora da presença do corpo se tornando como carne, osso e sangue. As pessoas que não o tinham eram justo as que o atacavam, como espectadores de uma plateia desdenhavam como inacreditáveis e falsos os amores assim. Esqueciam-se das emoções românticas de um enorme número de textos e obras que se fizeram crer apenas por meio de longas e distantes cartas e telegramas; ou as já pouco usadas técnicas de gozo e vida por ligações telefônicas.

tumblr_n3olhzKTYG1txg5sso1_1280Usei o Tinder algumas vezes

Comecei quando voltei para o Brasil. Não sei bem porque baixei o app, talvez por ser estrangeira em minha própria casa e isso assustar mais do que ser estrangeira no desconhecido. O primeiro cara que conversei, falamos ao longo de dois dias, nunca mencionamos nos encontrar.

Ao final, ele era casado e sua mulher me ligou. Com outros caras conversei por meses, também nunca propomos o encontro. Com um curitibano fui à praia e hoje nos ajudamos nas escritas de projetos. Mas foi somente aqui em Londres que de fato conheci alguém realmente interessante.

A primeira reação que tive foi pensar como nós, duas pessoas que gostam de arte, falam sobre literatura, que nos interessamos por arquitetura e bons restaurantes, bem… o  que estamos fazendo no tinder?

A questão é que o mundo sempre passou por inovações que provocavam comentários como “na minha geração era diferente!”, o que distingue para os tempos de hoje é que a mesma geração sofre constantes revoluções a ponto de interagir e fagocitar estas mudanças. Se a geração da virada dos anos 90 para os anos 2000 criaram o Tinder para concretizar o rumo que davam às suas formas de se relacionar: primeiro, o corpo, e depois, o coração. Nós, dos anos 80 para trás o ressignificamos, após nos livrarmos das obrigações matrimoniais de ” na alegria e na tristeza” e estamos buscando a felicidade compartilhada da maneira que podemos.

Eu, como uma mulher de 30 anos, começo a entender que conhecer um cara em um bar já não é como antes. Não saio para azaração e quando sento em algum pub é para encontrar amigos que a rotina não me deixa ver com uma frequência maior. Não vou a boites, acho insuportável a música alta que não nos deixa interagir, não gosto da ideia de VIP e muito menos dos caras que estão lá. Assim, fico refém de me relacionar com quem faz parte da minha rotina. Entendeu o drama, né?

O Tinder é como a vida porque de vida é feito

O Tinder é a possibilidade de encontrar um cara que não há outra forma de conhecê-lo, alguém que passa pelas mesmas angústias que eu, que goste das mesmas coisas e que busque algum tipo de contato. Conversava com uma amiga um pouco mais velha que eu, falávamos do app e da maneira como ele tem ajudado ela, que saiu recente de um divórcio, a recuperar a autoestima, mesmo que nunca tenha tido coragem de ir além de um bate-papo.

Nossa geração descartar-se do que se é, para enfim seguir muitos outros elos de contato-afetivo e também as paixões arrebatadoras que se fazem sim através da letra, porque letra também é corpo. Pela voz, porque voz também é corpo. Algumas descrições trazem tanto de si que através das construções de parágrafos enxergamos muito além: o humor, a personalidade e a vida. O Tinder é como a vida, tem de tudo, dos babacas aos apaixonantes. Problemático tanto quanto a vida, porque de vida é feito.

Assim, confesso aqui que tenho usado, principalmente por ser estrangeira em um país não receptivo. O uso como ferramenta para treinar o idioma e, por sorte, tem me trazido novos bons amigos. Basta ter fé, alguns cuidados e paciência.

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