Viajante escreve cartas para desconhecidos e as envia de algum lugar do mundo

Quem, nos dias atuais, teria a paciência, a originalidade e a doçura de enviar uma carta? Foi isso mesmo que eu disse: uma carta, daquelas escritas à mão, com letras redondinhas e caprichadas, cuidadosamente e às vezes até secretamente coladas. Elas, que carregam junto com a escrita, expectativa, saudade e o desejo de estar junto.

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Em tempos de WhatsApp, Skype, Facebook, a impaciência não dá lugar às respostas que demoram mais que cinco minutos. Imagine só, esperar por semanas e encarar o vazio que se instala desde a intenção da postagem até o recebimento daquele envelope coberto de selos e carimbos.

Buscá-los na caixinha meio amassados, amarelados, viajados… fazia parte da rotina de encontrar notícias boas, às vezes ruins, quando o carteiro se encostava no muro e irritava o seu cachorro, não é mesmo? Era a vontade mútua de estender uma história geograficamente através do tempo.

nay girelli
Nay Girelli

E essa é justamente a proposta do projeto Cartas em Trânsito, da viajante Nay Girelli: escrever cartas para quem quiser, de qualquer lugar que estiver. A ideia surgiu de duas experiências pessoais: as memórias e a universidade.

“Minha avó foi quem me ensinou a escrever. Antes mesmo da escola, ela colocava eu e meus primos sentadinhos e pedia que escrevêssemos, que inventássemos histórias e assim seguiam tardes inteiras. Já no mestrado, passei dois anos pesquisando sobre esse gênero”, explica.

A dinâmica do Cartas em Trânsito

A partir dessas duas paixões, Nay deseja chegar a todos os lugares em que estiver alguém esperando pelas suas palavras.

“Escrever cartas é lidar com a presença da ausência: um emissor e um receptor que não estão, mas que comungam o desejo de estar junto. A distância é fundamental para essa escrita, seja ela física ou emocional. Dizer carta, aqui, corresponde a conservar um estilo: palavras que não necessitam do imediatismo da entrega”, explica.

Fazer parte do projeto é bem simples. Você entra em contato através do e-mail cartasemtransito@gmail.com, troca algumas informações com ela, deposita um valor que não é estipulado – fica a seu critério –, ela escreve uma carta e envia para você.

Além de falar um pouco sobre o lugar em que está no momento, antes de escrever dá uma olhada no Facebook do interlocutor para ter alguma intimidade nos manuscritos. Depois disso, ela promete que é só aguardar o carteiro da janela de casa.

Escrever e viajar

Nay conta que sempre teve um espírito desobediente, desorientado e, por isso, tão singular. “Assumir a primeira pessoa foi a única possibilidade de escrever que encontrei. Queria que em meio a esse caos contemporâneo, as pessoas pudessem me escutar em bom tom e soubessem reconhecer minha voz.”

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Carta recebida de seu irmão, cinco anos antes de ele morrer

A estrada é a sua outra grande paixão. Atualmente morando em Londres, está sempre se movimentando entre um destino e outro. Desde os 15 anos vive sozinha, mas não quer dizer que esteja só. Em 2014 saiu para seu primeiro mochilão internacional e os três meses de viagem se transformaram em oito.

A estrada é sua casa, e é assim que tem encontrado o seu lugar no mundo. Sem raízes na terra natal, não se prende ao estilo tradicional de vida e resolveu escrever seus próprios rabiscos de existência em muitas terras diferentes.

Acompanhe o projeto pelo blog Cartas em Trânsito e também pelo Facebook. A Nay também escreve artigos para o Viajantes Aprendizes, você pode lê-los aqui.

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