Eu, o Chaves e o sanduíche de presunto

São Paulo irá receber pela segunda vez a Vila do Chaves. A exposição começa no dia 20 de fevereiro e segue até 27 de março, no Memorial da América Latina, ao lado do metrô Barra Funda.

Por esse motivo, não poderia deixar de dividir com vocês esse artigo, que foi escrito há pouco mais de um ano, quando Roberto Gomes Bolaños morreu, aos 85 anos. O homem que conseguiu a proeza de viver mais de 4 décadas com 8 anos de idade.

vila do chaves

Já se foi o disco voador

Roberto ou Chaves. 8 ou 80. O menino do oito, criado pelo senhor que o fez conquistar mais de 80 países.

O senhor Bolaños foi um humorista mexicano que revolucionou o jeito de se fazer rir. Que conquistou crianças, adultos e pessoas de diversas idades, mas que eram jovens ainda. Pessoas de diversos países, e de diversas gerações. Pessoas de diversas classes, de diversos escalões.

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Uma vila de um bairro de classe média baixa, onde os personagens retratavam muitos daqueles  que vemos todos os dias, em todos os lugares. Num primeiro olhar, nenhuma novidade para nós, latino americanos.

Na vila do menino viviam pessoas comuns, em situações repetidas, num típico humor pastelão no qual pouca gente apostaria. Tudo isso cercado por um cenário tão simples que as portas, móveis e pedras eram feitos de isopor, e com efeitos que não tinham nada de especiais.

aerolitos

No Brasil

Tal programa era desacreditado por muitos, incluindo a alta cúpula do SBT, que insistiu para que Silvio Santos não comprasse o pacote de programas da Televisa.

Nesse pacote, entre outros programas estava o programa do menino do 8, além de um outro cuja estrela era um super herói atrapalhado e sem poderes, que parecia debochar de todos os heróis clássicos que faziam enorme sucesso na época.

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O teimoso e visionário Silvio Santos bateu o pé, e resolveu ficar com todo aquele pacote só para ter o programa do menino pobre que supunha-se viver num barril. Essa decisão é que mudaria para sempre a vida de muitos brasileiros, inclusive a minha.

Como muitos, assistia Chaves e Chapolin diariamente, em todos os horários possíveis e inimagináveis que o SBT o transmitia. Eu e tantos outros…

charuto

Chaves: um mau exemplo?

Muitos pais e mães se preocupam com o que seus filhos veem na TV, e por diversas vezes proíbem essas crianças de assistirem programas que deem maus exemplos para o desenvolvimento moral/intelectual dos pimpolhos.

Nunca vi alguém que proibisse seus filhos de assistir o Chaves, o que a primeira vista não faz muito sentido. Cito aqui alguns motivos que a primeira vista tornaria o programa passível de censura:

  • Os adultos batem nas crianças, em todos os episódios.
  • As crianças batem nos adultos, ainda que seja sem querer querendo.
  • Há preconceito de classe, o tempo todo.
  • O professor fuma charuto dentro da sala de aula, ainda assopra a fumaça na cara das crianças.
  • Em sala de aula o professor é ironizado e desrespeitado todo o tempo
  • Respeito aos os mais velhos? Nem pensar.
  • Seu Madruga, o maior ídolo da série, é um mau exemplo em todos os sentidos que se possa imaginar.
Pergunto-me se o menino da vila faria sucesso se estreasse nos dias de hoje. Na geração da chatice do politicamente correto, será que deixariam passar a salvo um programa que pratica bullying o tempo todo?

Apesar dos fatos acima, nunca vi algum pai ou mãe proibir seus filhos de assistir o programa do menino do 8, quiçá o do Super anti-herói latino.

Roberto e sua turma faziam as piadas com tanta inocência, beleza e naturalidade que todas essas coisas eram vistas como brincadeira, humor pra valer, sem essa veia cretina politicamente correta que impera no humor que se vê na televisão e na sociedade de hoje.

chaves

A vida de Chaves

Chaves fugiu do orfanato após a morte de seu melhor amigo, que segundo ele, ficou doente, mais doente e morreu. Não tinha casa, e nem qualquer parente vivo, então ficou perambulando pela rua, provavelmente torcendo para que alguém lhe desse um sanduíche de presunto e um suco de tamarindo, que parecesse de groselha e tivesse gosto de laranja. Ou até um chuuuu-rro, seria muito bem-vindo para aquele menino com fome e sem comida.

“Os animais que comem carne se chamam carnívoros; os que comem frutas se chamam frutívoros; os animais que comem de tudo se chamam ricos” Chaves

Depois de aprontar algumas pelas ruas, fumar um “cigarrinho esquisito” e fazer malabarismo no farol se viu em frente àquela vila, tão parecida com tantas vilas que se vê pelo México. Um pobre menino comum, num pobre lugar comum.

Chaves então foi acolhido por uma senhora que vivia no número 8, sendo conhecido desde então como “El Chavo del Ocho”. A frase “tinha que ser el Chavo del Ocho” no Brasil foi adaptada para “tinha que ser o Chaves de novo”.

A velhinha que morava no 8 em pouco tempo morreu, deixando o menino sem casa, de novo. Ele até tentou permanecer no número 8, mas não era bem-vindo pelos novos moradores de lá.

Mesmo que não parecesse, os outros moradores da vila, como a velha carcomida, o tripa escorrida e o bochecha de buldogue gostavam daquele menino, e deixaram ele permanecer por lá.

Chaves permaneceu, dormindo e morando não se sabe aonde, mas segundo ele “ninguém pode morar em um barril”.Vivendo ou não no barril, foi de lá que Chaves conquistou a todos, ricos ou pobres, Barrigas ou Madrugas.

Foi desse barril que Chaves pôde se tornar o o programa de humor mais querido da infância de muita gente e por isso permanece no ar por mais de 30 anos.

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Mas por quê?

Afinal, o que tinha a turma do Chaves de tão especial? Por que as crianças em diversas partes do mundo tinham e tem uma série de TV tão simples como essa como o maior programa de humor já feito?

Eu não sei, e acho que se alguém soubesse já teria copiado o modelo e conquistado o mundo como o Chaves conquistou. É claro que Bolaños não fez tudo sozinho, e se cercou de uma equipe de bons profissionais.

Entretanto, segundo entrevista dos próprios atores (em especial Edgar Vivar e Ramon Valdes) todas as cenas, todas as entradas e todas as falas eram arquitetadas pelo mestre Bolaños, que muitas vezes se confundia com o menino Chaves.

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Eu, o Chaves e o sanduíche de presunto

Tive por muito tempo uma camiseta do Chapolin Colorado, presente de um grande amigo, e que sempre ia viajar comigo (a camiseta, não o amigo). Esse amigo é o Rodrigo, que cursou matemática comigo e dá esse incrível presente para vários amigos. Receber uma dele, foi pra mim uma honra.

Essa camiseta já esteve comigo em diversos países, e sempre que eu a vestia ouvia entusiastas gritando “El Chapulin Colorado” entre outras coisas. Não importa onde fosse, não importa quem falasse, isso sempre vinha seguido de um generoso sorriso de aprovação.

Certa vez na República Dominicana, um hippie ficou fascinado com a tal camiseta, me dizendo que poderia pegar qualquer um de seus trabalhos artesanais em troca da camiseta. Gentilmente agradeci e disse que não poderia trocar algo que havia sido presente, mas não foi fácil convencê-lo a desistir da troca.

“O heroísmo não consiste em não ter medo, mas sim em superá-lo.” ― Roberto Gómez Bolaños

Uma outra vez, em uma ilha no Equador enquanto jogava sinuca, ouvi numa rádio de qualidade duvidosa uma música que comparava o amor de duas pessoas aos poderes de alguns super heróis (eu disse que era brega).

Não foi a força do Superman, nem a agilidade do Batman na tal canção que me chamaram a atenção, mas a astúcia do Chapolin que também estava presente naquela letra. Numa ilha do Equador, num boteco de quinta, eu não contava com essa astúcia.

Chaves, Chapolin, Dr. Chapatin e a tal da camiseta já estiveram comigo em muitas viagens, mesmo naquelas em que eu fazia em minha própria cabeça. E que coisa incrível foi constatar no auge da minha sabedoria infantil que Chaves e Chapolin eram “a mesma pessoa”.

Eu fiquei fascinado com aquilo, mas tive certeza de que foi um equívoco de minha parte, quando vi um episódio em que os dois estavam lado a lado.

chapolin

O tempo passou, e quanto mais eu crescia, mais eu admirava e respeitava a figura de Roberto Bolaños. Vi muitas entrevistas, li muitas coisas e assisti até a alguns documentários, como um que encontrei por acaso num hotel no Chile. Ficava sempre claro pra mim que aquele cara tinha algo a mais, algo de diferente, algo além.

Tentei explicar a muitas pessoas que o que ele produziu não foi só humor, mas uma análise de sociedade séria e crítica, mas ninguém tinha paciência comigo. Diziam que isso isso isso era coisa da minha cabeça, e que os programas eram feitos mesmo para dar risada.

Em outra ocasião, quando turistava por terras mexicanas, fiz um passeio que partia da cidade do México e visitava duas cidades vizinhas: Taxco e Cuernavaca. Era 2010, e era dia de final de Copa do Mundo.

:: O México curioso e pouco conhecido

Eu, é claro, vestia a já desbotada camiseta do polegar vermelho. Toda remendada, não vale nem um centavo, mas ainda agrada quem olhar.

Tão desbotada a camiseta estava quanto as fotos que lá tirei, pois minha máquina fotográfica decidiu que daquele dia pra frente só tiraria fotos horrorosas.

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As duas cidades pelas quais passei estavam no meio do caminho entre a Cidade do México e Acapulco. Sabe, aquela cidade do hotel onde o Quico tomou sol de óculos?

O tal hotel por sinal era de um dos donos da Televisa, e o episódio foi feito para promovê-lo. Diz-se até que o elenco todo foi pra lá, gravou, e voltou no mesmo dia, sequer aproveitando o bom hotel.

Eles ao menos chegaram até Acapulco. Eu parei em Cuernavaca, no meio do caminho. Tentei negociar valores a parte com meu guia, mas ele me explicou gentilmente que Acapulco estava realmente distante de lá, e que eu teria que deixar para uma próxima oportunidade.

Não fui a Acapulco, nem fiz um luau cantando “Boa noite vizinhança”, mas tive um outro prazer inigualável.

Meu guia me perguntou: “Você quer comer um sanduíche de presunto? Posso te levar ao melhor lugar da região.” Obviamente ele falou em espanhol, se referindo ao sanduiche de presunto como “Torta de jamón”

:: Transforme o “quero ir” em “estou embarcando agora”

Como negar comer a mais famosa iguaria mexicana? Ainda distante de Acapulco, segui os bons conselhos do guia, e caminhei entre alguns becos de Taxco para o tal lugar secreto.

Taxco é uma cidade encantadora, onde todas as construções são pintadas de branco, formando um cenário próprio pra um momento inesquecível como aquele.

Lá chegando, pedi um guaraná qualquer, e fiquei aguardando o tal sanduíche, ou que seja, a tal torta de jamón. Um sanduíche é um sanduíche, e não sei se cercado pelo fator mítico ou não, posso dizer que aquele era realmente diferente. Foi o sanduíche de presunto mais gostoso que já comi na minha vida.

sanduiche de presunto

Nunca me esquecerei do sanduíche, assim como não me esquecerei do Chaves. Mesmo que eu esteja com mais anos que o velho Jaiminho, com uma memória fraca e querendo evitar a fadiga, eu me lembrarei daquele dia, e daquele sanduíche de presunto.

E quando, eu, em minha velhice, mas sendo jovem ainda me lembrar daquele dia, eu certamente direi.

Tinha que ser o Chaves.

Descanse em paz Chespirito. Que Shakespeare e Carlitos o recebam de braços abertos.

Por aqui, o povo chora..

choro chaves

“Boa noite meus amigos. Boa noite vizinhança. Prometemos despedirmos sem dizer adeus jamais.” ― Chaves

Curiosidades sobre a série

  • Angelines Fernandez, a “Bruxa do 71”, já foi eleita Miss México
  • O ator Horácio Bolaños, que interpretava Godiñez, era irmão de Roberto Gómez Bolaños
  • O primeiro capítulo de Chaves foi transmitido em 21 de junho de 1971.
  • Mais de 25 gibis do Chaves foram lançados pela Editora Globo, de Roberto Marinho, em 1991.
  • Roberto Gómez Bolaños, estudou engenharia, mas nunca exerceu a profissão.
  • A mãe de Chiquinha morreu no momento em que deu à luz;
  • Seu Madruga já foi vendedor de churros, barbeiro, mecânico, sapateiro, pintor, leiteiro, carpinteiro e muito mais;
  • A cidade onde o carteiro Jaiminho nasceu, Tangamandápio, existe de verdade, fica no estado de Michoacán, no México;
  • Chaves já foi dublado para mais de 50 idiomas, chegando a ser exibido em países como China, Japão e Marrocos;
  • Chapolin existe na vida real? Na verdade esse é o nome de um gafanhoto vermelho, que no México é comido.
  • Todas as músicas das séries Chaves e Chapolin são compostas pelo próprio Roberto Gómez Bolaños.
  • Dona Florinda que se casou com Bolaños chegou a ter um affair com Carlos Villagran  e com o diretor Enrique Sevogiano.

Pepe, pode por a vela para que nosso ídolo, nosso amigo e nosso herói descanse em paz.

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