“Somos multidão e não andamos só”, sobre o primeiro assédio na estrada

Viajantes, faz algum tempo que não escrevo. A vida no Rio foi turbulenta, a passagem por Portugal muito rápida e agora já estou em Londres. Aqui vou ficar por um longo período, ao menos até me sentir confortável com o inglês. No entanto, que felicidade receber tantas mensagens de leitores do blog.

Dentre as mensagens e as pessoas que vou conhecendo pelo caminho, uma pergunta insiste em se repetir: “Você não tem medo?”. “Sim, todos os dias”, essa é a minha resposta. Tenho medo de tantas coisas assim como qualquer um. Se você parar para pensar, todos temos receio algumas vezes por dia, e nem por isso deixamos de fazer o que temos que fazer. Comigo na estrada acontece assim do mesmo jeitinho, tenho medo, mas sigo em frente. Mas de todos os medos, de não ter certeza se vou dormir, se terei dinheiro para comer, pagar hostel ou mesmo o metrô, meu maior medo é a ameaça constante sobre minha vida, simplesmente por ser mulher.

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Faz algum tempo que nós, viajantes, acompanhamos a trágica notícia das meninas argentinas que foram assassinadas no Equador. Com a notícia um mal-estar e a sensação de nunca estar segura em lugar algum. Talvez eu não esteja tão errada assim. Poderia facilmente começar esse texto pedindo um minuto de silêncio por toda essa violência cometida, pelos assassinos e pela mídia que, ao tentar culpar as vítimas por simplesmente estarem sozinhas, é tão criminosa quanto os dois assassinos por ela potencializar futuros homicídios, nos fazer sentir que somos culpadas pelas invasões e violências ao nosso corpo.

project_unbreakable_grace_brown-20Porém, não quero perder mais nenhum minuto com essas palavras que tanto horror nos causaram. Então o 1 minuto de silêncio fica aqui dedicado à Marina Menegazzo, Maria José Coni e todas as vítimas de qualquer violência que nossas mulheres da terra sofreram e sofrem.

Façamos esse 1 minuto.

Para uma mulher, estar na estrada não é impossível, mas requer cuidados em dobro. Precisamos enfrentar o problema como ponto de partida para tentar resolvê-lo. Em junho, acontecerá online e gratuito o Encontro de Mulheres Viajantes (EMuVi), uma iniciativa bacana para incentivar a mulherada a pegar a estrada, mas hoje eu quero contar uma parte da minha história. Não para amedrontar e sim para vocês ficarem um pouco mais alertas.

Temos o direito sobre o nosso corpo e não podemos admitir que alguém nos subjugue, maltrate ou viole. Tenho visto como a internet tem sido um meio muito importante para despertar em nós um senso crítico, amarmos mais uma às outras. Sororidade é algo que temos muito que aprender, nós mulheres que crescemos aprendendo que a outra é uma rival e que a qualquer momento pode roubar o que é nosso. Desfazer-se dessas construções é necessário se queremos sobreviver porque somente se nos unirmos poderemos de fato provocar mudanças.

Um bom exemplo são os movimentos contra o Bar Quitandinha na Vila Madalena, #NiUnaMenos na Argentina e o movimento #PrimeiroAssédio. Um bar que seriamente terá que repensar seus valores se quiser sobreviver e uma hashtag que revelou ao mundo que toda mulher já sofreu algum assédio, e o primeiro muitas vezes na infância.

Na estrada

“Você é uma menina má, não eu. Se lembre que você começou tudo isso”
“Você é uma menina má, não eu. Se lembre que você começou tudo isso”

Hoje me deu vontade de trazer a minha experiência, contar um pouco do que me passou nesses 15 anos em que estou entre cidades e estradas, ônibus e caronas. Meu #PrimeiroAssédionaEstrada aconteceu há alguns meses, tinha acabado de chegar de um mochilão de oito meses por três países. Nele fiquei em casa de desconhecidos, peguei carona, dormi em rodoviárias e todas essas coisas de estrada mesmo. No entanto, foi em um lugarzinho do lado da minha cidade, roteiro meu e dos meus amigos que tudo se passou.

Estava em Matilde, um vilarejo bem pequeno com muitas cachoeiras. Sempre vou com muitos amigos, mas desta vez fui só. Estava caminhando para ir à cachoeira, uns 20 minutos de caminhada parou um carro ao meu lado, um senhor de uns 60 anos e perguntou se eu queria carona. Disse que morava por ali e que podia me deixar mais próxima.

Toda mulher, não sei como explicar, basta um olhar e ela já entende as intenções de um homem. Afinal, somos adestradas a nos esquivar dos estupros, diferente dos homens homens, que não são ensinados a não estuprar. Acho que ao todo, não fiquei um minuto no carro, já desconfortável com os olhares quando ele em um movimento sincronizado tentou pegar em minha perna enquanto ofereceu levar-me à cachoeira se eu o deixasse se esfregar em mim.

“Pare de fingir que você é um ser humano”
“Pare de fingir que você é um ser humano”

A minha reação

Naquele infinito segundo eu não tive medo por mim, justo naquela semana a Elza Soares tinha lançado o álbum A mulher do fim do mundo, as letras despertaram uma mulher desconhecida até então que não me deixou ter medo. Ali eu estava disposta a tudo, mas ele não iria me tocar. Tentei abrir a porta mesmo com o carro em movimento. As travas estavam sobre o controle do motorista. Começamos a discutir e minha vontade era de pular naquele pescoço e acabar com ele, estava disposta a isso, ele tentou tranquilizar a situação, mas eu já não cabia em mim. Foi quando finalmente parou o carro e eu desci.

Não posso imaginar as incontáveis vezes que ele repetiu esse comportamento para se sentir tão seguro em tentar me intimidar, eu, uma mulher de 30 anos. Assim, eles vão fazendo, usam o “poder” que têm para tirar qualquer vantagem. Para quem quer que eu conte ou contei essa história, a primeira pergunta é porque eu fui pegar carona e sozinha. Ninguém até hoje me perguntou sobre ele, questionou seu comportamento assim como todos os jornais que eu li sobre as meninas, nenhum falava sobre feminicídio.

Ser mulher, sozinha e mochileira é ter a todo momento o risco de morte sobre nós, nunca ouvi dizer que um mochileiro homem deixou de ir a uma cachoeira por estar só e se sentir ameaçado. Estar na estrada é desconfiar de cada olhar, não dá pra diferenciar quando querem roubar ou invadir seu corpo, porque na verdade essas ameaças não se separam.

Termino o texto assustada, qualquer barulho acelera meu coração. Estou me sentindo muito mal e chorei algumas vezes enquanto escrevia. A minha história como a de qualquer mulher poderia ser a história das duas meninas. Sigamos firme e forte na luta, pois o caminho é longo e a briga é contra a história de um mundo.

Somos multidão e não andamos só. O medo e o ódio ao feminismo é o medo da nossa posição de enfrentamento e tentativa de diminuir nossa potência revolucionária.

Ninguém merece ser estuprada ou morta, ninguém é culpada por ser estuprada.

Esse texto nada mais é que uma reivindicação ao nosso direito de ir e vir, negado somente por sermos mulheres. A estrada é nossa companheiras, pé na estrada!

Obs. 1: Na primeira foto do post aparece a linda Juana Zancheta, vocalista do Bloco Bleque, capoeirista e médica. A foto foi feita para uma campanha de empoderamento de mulheres.

Obs. 2:  Projeto Unbreakable

Difícil acreditar, mas ainda nos dias de hoje, há pessoas que acham que vítimas de abuso sexual tiveram algum tipo de culpa por terem sido molestadas. Pra quebrar esse paradigma que torna a vida das vítimas ainda mais difícil, a fotógrafa Grace Brown iniciou em 2011 o Projeto Unbreakable, no qual sobreviventes de abusos sexuais são fotografadas segurando uma frase do violentador. As fotos do post são desse projeto.

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