Sobre despedidas: eu prefiro viver!

Depois de oito meses de estrada, conhecer muita gente e viver muitas histórias, aqui sentada em minha escrivaninha a olhar o vento despentear o cabelo das árvores, levantar a saia da menina de bicicleta, tudo isso enquanto escuto King of soul, do BB King. Não pensar nas pessoas que estão longe é como impedir de sentir um cheiro.

By Luara Monteiro
By Luara Monteiro

Impossível. Até porque acho que é pra isso que a gente viaja também, para aprender a amar o outro e aceitá-lo da maneira que ele é. Conheci muita gente que bastou um instante pra transbordar amor, assim do jeitinho que são e foram lindos dois dias, talvez até uma semana.

Há outras que temos a oportunidade que fiquem mais um cadinho e compartilhando o novo, vivemos intensamente entre uma confeitaria incrível de pequenina porta azul, uma rua com luzes no chão, um verso d’uma música de um show que não se pode deixar de cantarolar e as tardes de pedaladas rumo ao desconhecido.

Conheci um italiano que quando nos vimos pela primeira vez, mesmo no meio de toda ã sua pressa, me deu um beijo no rosto daqueles com gostinho de casa e que até hoje o escuto chamando-me de chica. Naquele momento, eu que ainda lutava para dominar o novo idioma e me conectar com as pessoas, de repente me senti com um amigo de toda uma vida.

Por um instante não era mais tão difícil estar fora. Há amizades que são assim: já são antes de ser. Eu nunca tive a oportunidade de dizer a ele o quanto ele foi importante pra mim nestes dois meses que compartilhamos. Talvez ele nunca saiba e nunca leia esse texto que escrevi pensando nele, até porque quando ele se foi não conseguimos nos despedir ou então por ele não falar português, mas nada disso importa.

Viajar faz isso com as pessoas…

O depois não importa e o presente é a única garantia que você tem. E, quando as vidas vão caminhando pelos percursos que precisam fazer, não é o adeus que vai selar os momentos lindos, são os próprios momentos lindos.

Aprendi na estrada que não é preciso dizer que se ama, é preciso fazer sentir que amamos e somos amados e que só ali, naquele lugar em que a palavras não alcançam uma sintaxe é que podemos (de)morar.

De todas as coisas que vivemos neste tempo, as que conseguem de mim olhos d’água foram nossas idas ao cinema, perto do lugar que vivíamos, tinha um somente com filmes nacionais produzidos com incentivo do governo, Cine Gaumont.

:: Decidir partir ainda não é partir

Nossas idas lá nunca eram planejadas, apenas a urgência de não fazer nada. Cada sessão uma aposta, nunca olhávamos as sinopses e escolhíamos na sorte o que constantemente era azar. Assim na mesma medida de incontáveis filmes incríveis, outros nem tanto.

Quando tínhamos a sorte de uma sessão maravilhosa, saíamos pensativos e quase não falávamos do filme, talvez porque necessitávamos de um momento para digerir e pensar melhor.

Aqui confesso pra vocês o quanto adorava as sessões de filmes horríveis, porque estes não necessitávamos de nenhum pudor e com toda a promiscuidade que esse novo idioma nos permitia, entre risadas e exaltações, fazíamos sarcasmos com as cenas mais trashes. Fomos felizes e isso é o que importa e o que faz meu coração acelerar em cada mensagem. Sei que em Roma tenho um lar.

Mas, é claro que nem todas as pessoas que conhecemos são assim, porque o momento é crucial para marcar o grau de compatibilidade quando se conhece alguém: ambos estão longe de casa, dos amigos e precisam de força para enfrentar um país e um idioma novo, e assim, a necessidade faz o amigo.

Talvez também porque naquele momento o que acreditamos e temos por filosofia de vida estão de férias e você tenta experimentar falar sobre outras coisas. Mas, entenda bem, quando falo isso não digo que deixamos o que acreditamos de lado e sim, você não precisa enfrentar situações que tenha que evocá-los.

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Na mesma medida, estive três dias com um francês e assim, tendo um balcão de hostel como palco e garrafas de vinhos e cervejas como público, falamos sobre a vida. Um tempo depois, ele veio me visitar no Brasil e não sei bem se foi o fato da língua, que antes ambos falando algo estrangeiro a nós, e agora, eu como nativa e falante materna.

Mas, aos poucos fui sentindo que talvez não coubesse uma amizade, não que ele seja uma pessoa ruim ou que eu seja boa ou má, a questão é que o pensamento não se conectou. Fomos indispensáveis um para o outro naqueles três dias e isso nos bastou e temos que aprender lidar com isso também, que não é um problema.

Tentei ser a mais cordial possível, apresentei minha cidade, viajamos à praia, dei todas as condições possíveis para se locomover, apresentei meus amigos e assim se sucedeu até sua partida. Aprender a lidar com essa situação, com o “conhecendo melhor” que vira um desastre faz parte de uma trip, porque é com isso que você lida a todo momento: apostas. Seja filmes ou amizades, o necessário é aprender o que fazer com elas!

Viajar muito tempo só…

Isso também é perigoso e importante na mesma proporção. Esse francês, quando criança, viajou com a família por sete anos em um barco, me contou que o máximo de tempo que ficou sem ver a costa foram exatos 30 dias.

Ele e seu irmão cursaram a escola quase toda a distância, ali tiveram que aprender a ouvirem a si próprios, suas vidas dependiam basicamente de seus instintos e dos pais, seus mestres, em todos os âmbitos de aprendizagem. Tiveram o que muito de nós passaremos uma vida sem aprender: a nos ouvir e entender que o caminho só depende de nós mesmos.

Saiu da França assim que se formou em Filosofia (curso feito também à distância) e já estava há três anos viajando só pela América do Sul. Criado sob uma linha de pensamento e a pouca adversidade da sala de aula e as construções e lapidações das relações.

:: Viajar é preciso, mas também é perigoso

Notei que ele pouco me escutava e isso muito me incomodou, pensei ser uma questão de ego, mas meus amigos reclamaram da mesma coisa: uma incansável tentativa de colonização do nosso pensamento e que, quando já sem argumentos, se agarrava fortemente em palavras acessórias que usávamos para chegarmos mais rápido à conclusão. Entre incoerências e inconsistências, a impossibilidade de seguirmos adiante.

No entanto, a vida segue, novos caminhos se cruzam e o gostoso é não saber qual é a parte do caminho do outro que também é seu, não saber para saber sendo, viver o momento porque, mais que um clichê, quando se está na estrada pode sim ser o último. Que tenhamos a sabedoria de sempre viver os melhores últimos momentos.

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