Viajar é preciso, mas também é perigoso!

Viajar, tirar férias da própria vida é perigoso. Não esta de 30 dias garantida pelas leis trabalhistas, e sim, tirar férias de você mesmo: cultura, idioma, amigos e hábitos; romper com toda uma história e se experimentar sendo outros.

O perigo está quando se volta, encarar a própria vida como se olha para um personagem em um filme e poder enxergar todos os pormenores que se fazem tão grandes entraves, mas que são invisíveis aos olhos acostumados e neste momento ter a certeza de que nunca mais poderá ser o mesmo.

É olhar no fundo dos olhos dessa tal ordem estabelecida e não baixar o olhar, pois já não se pode deixar de ver.

estrada

É aceitar que há coisas que já não cabem mais nesse novo “eu”, compreender que lugares e pessoas foram importantes na caminhada que te trouxe até aqui, mas que elas são andaimes e não a construção em si. É preciso coragem para arrancá-los porque eles são os meios e não os fins.

Viajar não só por terra, mas daqueles que acreditamos que somos na vida e assim tomar coragem de desempilhar os castelos de andaimes que acumulamos com o tempo.

Não é fácil e é preciso muita coragem para se despedir.

Talvez neste momento em que escrevo percebo que não é uma questão só de coragem, já não se pode fazer da mesma maneira! É sufocante e continuar sendo causa mal estar.

Romper já não é uma opção, há algo que inquieta e você não sabe bem o que é, manter o antigo papel e retomar de onde parou antes de partir, é só o respirar fundo antes de saltar para essa nova consciência ativa, o confronto com você mesmo é necessário.

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Lembro a primeira vez que voltei de uma longa viagem, três meses na estrada, contato com um mundo totalmente novo, pessoas tão diferentes e isso não me assustava. Ao final desta linda viagem, como retomar aquela vida que se fez tão pequena, aquela cidade pequena que se fez minúscula?

Ao contar, parece que sinto novamente toda a angústia que me tomava, sempre soube que voltaria, mas em algum momento comecei a esquecer e viver o que cada dia me oferecia até que chegou o fim.

Depois de trocar a passagem quatro vezes e acabar com o estoque de desculpas, entrei naquele ônibus como se ele me levasse para a morte e, ao descer na rodoviária, encarar aquele rio enorme que, de nome Doce, só me trazia um amargo à boca, entendi que algo mudou.

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Na rodoviária eu sentei e chorei, já não pertencia mais àquele lugar, o mundo é tão grande e eu resolvi ir. Dois meses depois estava morando em um colégio interno em outra cidade, com colegas de todo lugar do Brasil e assim deu-se início a essa minha sede de movimento insaciável.

Quinze anos depois dessa primeira experiência, ainda sinto essa aflição quando volto de alguma viagem.

london bus

No entanto, hoje percebo que mesmo o voltar não é um retorno, é uma maneira de seguir em frente que me levará ao próximo destino. Enquanto espero pelo próximo destino começo a desenvolver um projeto que se chama Cartas em Trânsito e, assim como fiz pela América do Sul, com a viagem para Londres criar corpus para um futuro doutorado.

Meu nome é Nay Girelli, tenho 30 anos e com esse texto divido pensamentos que surgem, não ao final de uma viagem e sim “entre” uma e outra, quero saber se outras pessoas se sentem assim e como lidam com esses sentimentos.

Assim termino esse texto não como quem chega ao fim, e sim com um ponto final que significa o início de outros novos parágrafos…

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